REVISTA DE TEATRO

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2/12/06

Todas as minhas vidas - Lou de Olivier

  Todas as minhas vidas
(Conto de natal ficticio de Lou de Olivier escrito em 1999, publicado em diversos sites e jornais Brasil e Europa)

É difícil acreditar, mas descobri que o passado e o futuro são apenas partes do presente . O passado continua existindo e o futuro já está concretizado. São as pessoas que nascem e morrem e acabam conhecendo apenas uma parte e uma época do Universo. E, assim, ficam iludindo-se, imaginado serem criadores de tudo o que simplesmente já está lá. Acham que ajudam a construir o futuro ou tiveram alguma influência no que passou.

Foram poucos segundos, mas me transportei ao futuro, onde já vivo em outro corpo. Lá no futuro não há limites de espaço ou tempo, não existe dinheiro, ninguém precisa comprar nem pagar nada. Todos flutuam de um lado a outro sem necessidade de nenhum tipo de transporte. No futuro é possível comunicar-se apenas pelo pensamento, uma telepatia que dispensa telefones, Internets, e tantos recursos que, para quem vive o presente são fundamentais. E a vida parece abençoadamente eterna por uma energia indescritível.

Também fui ao passado. Usando um lindo e armado vestido azul tão claro, que quase era branco, caminho num grande bosque… O passeio pelo bosque deveria me dar paz mas, ao contrário, me deprime e amedronta. Parece não haver ninguém, nenhum ser vivo neste bosque, mas ouço algo, vozes, sons semelhantes a um bip e luzes. É difícil distinguir os sons e as luzes e nem sei de onde vêm. Tento entender o que estão falando, mas parece tudo tão confuso.

Penso que talvez falem sobre mim, comentem algo que aconteceu comigo e que, sei lá porquê eu não me recordo ou podem apenas falar coisas sem sentido e nada sobre mim. Continuo caminhando até avistar meu grande amor. Como sempre ele me espera, impaciente! Sorrindo, corro ao encontro dele: Um abraço forte, muitos beijos apaixonados e quase me esqueço das luzes, vozes e sons, que parecem aumentar cada vez mais. Um frio intenso envolve meu corpo causando calafrios. E os sons aumentam. Pergunto se ele sabe de onde vêm; ele apenas sorri e me beija novamente…

O futuro volta a me invadir e tudo parece tão melhor do que o passado que não resisto; vou ao futuro. Tento convencer meu amor a ir comigo e experimentar a sensação de total liberdade e elevação, mas ele se retrai. Diz que, no futuro, pertenço a outro e ele não quer interferir na minha decisão.

Começo a flutuar, minha fisionomia vai se modificando enquanto minhas vestes são substituídas por uma longo e esvoaçante vestido e torno-me mais uma habitante do futuro. Em meio a multidão procuro meu novo amor, mas não consigo encontra-lo… Sinto um pouco de saudade do passado, mas logo me integro a realidade do futuro, faço amigos, divirto-me ao perceber que também sou telepata e posso comunicar-me com todos sem sequer abrir a boca.

De repente percebo as mesmas luzes, vozes e sons do passado; aquele bip insistente e avisto um homem que me sorri. Está meio escuro, não consigo enxergar nitidamente sua fisionomia. A medida em que flutuo, vou me aproximando mais dele. Os sons e luzes ficam mais fortes.

Bem próxima dele, noto que ele é o mesmo homem do meu passado. Mas, se é ele mesmo, se foi ele o tempo todo, porque não veio comigo quando o chamei? Porque disse que eu teria que decidir com quem seguiria? E porque, estes sons e luzes sempre aumentam quando me aproximo dele? Ele nada responde, continua sorrindo, estende as mãos; tocando em meu rosto. Novamente sinto-me invadida por estranhos calafrios, tenho a sensação de estar girando no ar, mergulhando num abismo de prazer.

Finalmente ouço com nitidez a voz dele, que diz que está me perdendo e precisa reverter esta perda. Mas, estranhamente, ele fala no plural, como se não falasse só por si. Diz: "Estamos perdendo-a, precisamos reverter esta perda". As vozes se misturam aos sons do bip e não consigo entender o que ele quer dizer, a quem se refere. Sinto choques em meu corpo, tenho a impressão de que ele me sacode violentamente, enquanto grita para que eu reaja. Não sei que tipo de reação ele quer que eu tenha. Sinto-me frágil e magoada pela mudança brusca nas atitudes dele. Estava tão carinhoso de repente me sacode violentamente e grita, grita e aquele bip martelando meu cérebro…

Chorando, resolvo retornar ao passado. Acho que estava bem melhor lá. Dirijo-me à passagem, tento entrar mas não consigo. A passagem está fechada, tudo está muito escuro, o passado parece morto, extinto e já não posso retornar. Conformada resolvo instalar-me definitivamente no futuro, mas a passagem também acaba de fechar-se.

Tudo parece ter-se apagado, não há nenhuma luz e o bip agora tem um som muito longo e mais agudo do que nunca. As vozes continuam cada vez mais distantes, o homem que já não sei se amo continua me sacudindo e grita cada vez mais alto. "Por favor, não vá, volte para nós". Eu choro desesperada e não o entendo: Se me quer, se pede para que eu volte, porque me sacode e humilha?

Sinto um violento choque que parece agitar meu corpo todo. O bip começa a tocar de forma intensa e ritmada, as vozes parecem sussurros. A escuridão, aos poucos, dá lugar a uma neblina e, finalmente, vem a claridade. Olho ao redor, tudo está branco. Tento entender onde estou. Não há mais o bosque do passado, nem o espaço liberto do futuro. Há só um cômodo todo branco, cheio de aparelhos estranhos e luzes enormes num lustre gigante, pessoas vestidas de branco e o homem dos meus sonhos, que agora parece bem mais calmo. Aproxima-se e me ajeita na cama branca, dizendo: "Bem vinda de volta à vida e feliz natal!"

Tento comunicar-me por telepatia, não consigo; tento mover meus lábios para perguntar se aquela encenação toda foi um trote ou algo assim, mas meus lábios estão imóveis. Ele diz algo a alguém, sei que se refere a mim, mas não ouço direito e sai do cômodo. A cama começa a mover-se, duas pessoas a empurram por longos e brancos corredores. As pessoas vão comentando, enquanto empurram a cama:

- Que sorte, você viu? Depois de um capotamento como aquele, nenhuma fratura, nenhuma hemorragia, só uma parada cardíaca…
- Só parada cardíaca? Você acha pouco???

As pessoas riem, alguém passa por elas e diz:
- Feliz natal! - Para você também.
- Feliz natal!!!

Obviamente deve ser natal. Só não entendi ainda se é natal no passado ou no futuro. Ou talvez apenas seja natal no presente. Suspiro e avisto um anjo que sobrevoa o teto branco. Olho bem para ele e vejo o mesmo homem que estava no meu passado e no meu futuro. E que, há pouco, deu-me boas vindas e desejou-me feliz natal. Penso que deve ser mesmo um anjo, presente de Papai Noel.

Então finalmente adormeço…

criado por rosni.rosni    07:17:38 — Arquivado em: Crônicas - Lou de Olivier

1/11/06

O lerdo e o rapidinho - Dra. Lou de Olivier

Mais uma vez temos o prazer de ter uma nova crônica da Dra. Lou de Olivier em nosso blog,

        Dra. Lou de Olivier
Psicopedagoga e Multiterapeuta                           

                          O lerdo e o rapidinho

Era uma vez um homem que sempre deixava tudo para depois.
Estava sempre adiando compromissos, decisões importantes e até as mais corriqueiras. Ele imaginava que para tudo havia um horário determinado e para todos os fatos havia o momento certo e, por isso, pensava muito antes de tomar uma decisão ou atitude. E geralmente quando ia agir descobria que outro mais esperto e menos pensativo já havia tomado seu lugar.
Todos já estavam se acostumando com seu jeito e sua mania de deixar tudo para o "momento certo". E a maneira como agia sempre dentro dos horários estabelecidos.

Este homem nunca misturava assuntos do "escritório" com assuntos de "casa" e seu horário noturno era sagrado. Todas as noites, ao deitar-se pontualmente as 22:15 horas, ele desligava o telefone, a campainha do seu minúsculo apartamento e só voltava a liga-los no dia seguinte, 07:20 horas, quando levantava-se.

Ninguém sabe como este homem fez amizade com um rapaz totalmente diferente dele, que mudou-se para o apto ao lado.
O rapaz era dinâmico, extrovertido, bem humorado as vezes até demais. Na verdade, o rapaz era um pouco eufórico, ansioso e tinha pressa para tudo. Fazia tudo correndo, não pensava para decidir nada, apenas decidia e partia para a ação. Nunca tinha horário para nada, mudava de planos a todo momento, não tinha nem residência fixa, pois viajava a todo momento.

O rapaz acabou apegando-se ao homem metódico como a um pai e sempre pedia-lhe conselhos, apesar de quase nunca segui-los devido a sua grande ansiedade.E, dessa forma, a amizade dos dois parecia fortalecer-se cada vez mais.

Numa determinada noite, o homem metódico atrasou-se e, ao chegar em seu apto, esqueceu-se de desligar o telefone e a campainha e adormeceu. De madrugada, o fone tocou. O homem sobressaltado pensou em atende-lo, mas olhando no relógio, percebeu ser duas da manhã. Então pensou que não deveria atender, afinal aquela não era hora de alguém ligar para um trabalhador. Se fosse importante a pessoa voltaria a ligar no dia seguinte. E voltou a dormir. Acordou com o som da campainha tocando e, sonolento, percebeu pelo olho mágico que era seu amigo eufórico tocando a campainha as cinco da manhã. Voltou a deitar-se sem atende-lo, achando que poderia adiar o assunto. O rapaz eufórico, então colocou um bilhete por baixo da porta e voltou ao seu apartamento.

No dia seguinte, o homem metódico acordou pontualmente as 07:20, tomou seu café e arrumou-se para mais um dia de trabalho. Quando as 08:00 em ponto ele saia para o trabalho, avistou o bilhete do amigo e começou a le-lo.

O bilhete dizia o seguinte: "Caro amigo, cheguei à conclusão de que estou muito a frente deste tempo, tenho pressa para tudo, não consigo esperar por nada nem ninguém e sempre me atrapalho por causa da minha pressa excessiva. Por isso resolvi dar um fim à minha vida.

Não tenho coragem de suicidar-me com tranqüilizantes ou cortando os pulsos ou dessas formas bestas que todos usam, por isso resolvi implodir este prédio. Já contratei os profissionais que chegarão pela manhã.

Pensando nos vizinhos, contratei um seguro milionário que indenizará a cada um com um milhão de dólares para que possam comprar outro apartamento mil vezes melhor do que este que moram e avisei a todos sobre a explosão, por isso, todos já deixaram este prédio. Só não consegui avisar a você, que não atendeu ao fone nem a campainha, por isso, estou deixando este bilhete.

Como sei que você é meio lerdo, pedirei ao pessoal da demolidora que aguarde até as 08:15 horas, quando você pontualmente estará no ponto de ônibus e, portanto, livre da explosão.

Foi legal te conhecer. Pena que sejamos tão diferentes. Boa sorte e adeus…"

O homem metódico terminou de ler o bilhete, olhou no relógio, eram 08:20 horas. Pensou em correr, mas não estava acostumado e nem tentou.

Em segundos, o som estridente da explosão misturou-se ao som do teto ruindo e, de repente o prédio foi abaixo soterrando os dois amigos…

Moral da estória, não corra tanto que nem sua sombra possa alcança-lo. Mas também não seja tão lento a ponto de não ter poder de decisão sobre sua vida…

Dra. Lou de Olivier
Psicopedagoga e Multiterapeuta

Site oficial: www.loudeolivier.com.br

criado por rosni.rosni    17:54:38 — Arquivado em: Crônicas - Lou de Olivier

15/10/06

O lado irônico das correntes de amor…

Mais uma vez essa pessoa linda e amiga vem nos brindar com seus textos e crônicas!

Lou de Olivier - Psicopedagoga e Multiterapeuta

Crônica do mês de Outubro/2006

                   O lado irônico das correntes de amor…

Depois de participar de um super lançamento, onde teve de tudo um pouco, cheguei em casa bem triste com algumas cenas que vi e entrei diretamente na Net. Tantos e-mails que nem sabia por onde começar a responder. Em meio a tantas mensagens, 3 chamaram-me a atenção, por serem idênticas e, ao le-las, não pude deixar de ter uma boa idéia para uma crônica. A mensagem dizia assim…
"Me desculpa, mas tive que mandar para vc … Vá atrás de quem vc ama!!!!!!Sinto muito, mas eu é que não vou quebrar essa corrente messsssmmo!!!!!!! Aí vai…Vá atrás de quem vc ama…Nunca deixes aquele(a) que ama por aquele(a) que deseja, pois aquele(a) que desejas te deixará pelo que ama…Esta noite, à meia-noite, teu amor verdadeiro se dará conta de que te ama"… Olhei no relógio, passava da uma hora da manhã, então já não aconteceria nada a meia noite, mas continuei lendo…
"Algo acontecerá entre uma e quatro horas!" Ops, agora melhorou, entre uma e quatro horas, eram quase duas da manhã, ainda poderia acontecer algo nas próximas duas horas… Mas voltando a mensagem, "Amanhã esteja preparado para o maior choque da sua vida!" Ah, não, mais um choque? Mas minha vida sempre foi movida a choques de todos os tipos, no dia em que não sofrer nenhum choque, será estranho…
Bem, continuando a mensagem: "Se romper esta corrente terá má sorte no amor pelos proximos quinze anos"… Ui que meda!(meda é o feminino de medo, não confundam!) Eu nunca tive sorte no amor, mesmo, e continuo vivendo normalmente…
"Passe para quinze pessoas nos proximos quinze min" Levando em conta que recebi 3 mensagens iguais, devo multiplicar por 3 e repassar para quarenta e cinco pessoas em apenas 15 minutos, ou será que o tempo também se multiplica? Quem sabe eu tenha 45 minutos para repassar para 45 pessoas?
"Veja isso!Mande para 18 pessoas" Ué, mas não era só 15 pessoas? Até em corrente tem inflação? "ou vai perder o amor da sua vida"… Mas perder quem? Se a própria corrente está dizendo que, só depois de concluida é que o cidadão vai se dar conta de que me ama, como posso perde-lo se nem o tenho ainda? Há algum modo de se perder o que ainda não se tem? Ah, claro, nessa eu vacilei, tinha esquecido que tem a Física quântica…
"Se quebrar essa corrente.. Não vai beijar ninguém por 98 meses" Caramba, multiplicando por 3, ficarei 294 meses em beijar ninguém, levando-se em conta que um ano tem 12 meses, isso significa quase 25 anos sem beijar ninguém. Será que é só beijo de língua ou nem selinho pode acontecer? Que praga maldita, hein?
E a mensagem continua assim: "e não queremos isso… Então se liga! E se mandar essa mensagem para 20 pessoas" La vem a inflação de novo, agora tenho que enviar para 60 pessoas em 15 minutos ou seria em 45 minutos? "vai ser beijado pela pessoa que gosta"…Que legal, se eu repassar para 60 pessoas em apenas 15 minutos e se esse tempo estiver dentro do prazo da uma as quatro da manhã, o cidadão que eu gosto vai levantar no meio da noite, atravessar a cidade e vir me beijar, sem nenhum motivo aparente, apenas por que cumpri todo o ritual… Isso se ele não for atropelado ou não sofrer nenhum acidente, pois dirigir com sono não é muito bom…
Terminando a mensagem: "Blz? É facinho… É só copiar e colar Esta mensagem"… Ué, copiar e colar a mensagem? Não era para enviar? Ah, então ficou mais facil, copio e colo a mensagem em 60 e-mails, depois deleto, afinal, se é só copiar e colar posso fazer sozinha sem repassar a ninguém, ai terei enganado o destino, afinal, cumpri o que mandou, copiei e colei 60 vezes, e ainda deletei tudo pois é isso que manda o final da mensagem.
Então, cumpri o ritual e ainda são 3:17 da manhã, estou dentro do prazo e agora, cadê meu beijo?

Lou de Olivier - Psicopedagoga e Multiterapeuta
         Site oficial de Lou de Olivier, acesse:

                     www.loudeolivier.com.br

 

criado por rosni.rosni    19:47:00 — Arquivado em: Crônicas - Lou de Olivier
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